segunda-feira, 26 de julho de 2010

SAUDADE DE DEUS

Ouvi dizer da dificuldade que é expressar na língua inglesa o significado de saudade. Não é fácil, porque saudade é algo tão típico das línguas latinas e tão peculiar da nossa sentimental alma brasileira que não encontraria paralelo no pragmatismo anglo-saxão. Uma definição que particularmente gosto é a de um teólogo brasileiro, homem de Deus (ele riria se pudesse ler isso): “saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que provou e aprovou”.
Diz ainda Rubem Alves que saudade quanto mais se tenta explicar, na língua inglesa, mais se vai acumulando retalhos. Até parece que este sentimento só continua sendo bem expresso pela palavra saudade. Coisas da língua portuguesa.
Mas por certo cada um a quem me dirijo, ainda que não saiba definir com palavras o que significa saudade, sabe bem do que estou falando, pois também sente AQUELE NOSTALGIA de alguma pessoa ou coisa da qual está separado e que por um instante lhe é dado o direito de tê-lo em lembrança ao sentir um cheiro, um gosto ou ao ouvir uma música ou outra coisa que o desperte magicamente.
Deus também sabe o que é saudade. Ele sente saudade. Saudade de nós. Na sua alma (me perdoem os que não crêem que Deus tem uma alma) Deus guarda a vontade de nos ter ao seu lado. Deus sente saudade de nós, gostaria de nos ter de novo no seu jardim. Desde que partimos lá também ficou sem graça, sem brilho, virou lugar da saudade, das memórias tristes (o por do sol também é triste por lá) e o criador na virada de cada dia se lembra dos bons tempos, e gostaria de ter-nos novamente em casa ...
Uma das cenas mais ternas e dramáticas da bíblia, eu encontro no relato da criação. Aquele que nos fala da criação de tudo (um a um). Tudo criado, o homem e a mulher são criados por Deus para relacionar-se com Ele, viver em comunidade e exercer a administração gerencial dos recursos naturais. E tudo havia recebido de Deus um curto, mas perfeito diagnóstico de que era bom: “Viu Deus tudo quanto fizera e eis que era muito bom”... e belo (Gênesis 1:31). Mas o relato seguinte, quando se aborda o conflito de relacionamento entre a criatura e o seu Criador e onde emerge a figura da serpente aparecendo entre um e outro encontro do Criador com a criatura e esta parece estar muito longe de ouvir a sua voz e responder à sua sede de encontro.
A cena é extremamente humana e aconchegante, mesmo que o ambiente esteja carregado e o silêncio seja tão pesado. DEUS VEM VISITAR OS SEUS FILHOS, na virada do dia, hora da saudade da alma. Num primeiro momento nem presença, nem a voz de Adão e Eva são sentidas, e só surgem após alguma insistência por parte do Pai.
Gosto da expressão “virada do dia”, entardecer, sol “caindo”, a revoada de pássaros ao redor da copa das árvores, céu avermelhado. No interior era a hora da visita dos amigos ou mesmo dos filhos aos seus “velhos”, hora sagrada. Tomar cafezinho e bate papo na casa do pai. A hora da saudade da alma. É nesta hora que Deus “sai de casa” e vai à casa dos seus filhos – comer bolo de milho e tomar um gole de cafezinho na mesa da cozinha ao lado do fogão de lenha. Veio só para dizer que se importa, que nos quer, que tem saudade de nós, que gosta de estar com os homens e mulheres que criou e que gostaria de sentar numa roda pra conversar conosco.
Mas quando chega o criador dá com a cara na porta. De fato, a cena é ainda mais dramática. Quando eles desconfiam que Deus está se aproximando, fecham a “casa” e vão se esconder no matagal, lá longe. Eles não querem se encontrar com Deus. Temiam a reação por isso fogem. Reação de criança que não morre dentro de nós – fugiram. Temiam o encontro com Deus e também consigo mesmos: Não querem assumir a gravidade do que fizeram nem as suas conseqüências. Temiam pois sabiam que estar diante de Deus é como estar diante do espelho da verdade. A presença do Eterno os impeliria à reflexão, dor, choro, restauração e conseqüente transformação. Aproximar-se de Deus é arriscar-se à mudar. Eles não gostam de pensar nisso, preferem fugir: “ouvi a tua voz no jardim, e, temi, porque estava nu, e me escondi”. Começam a jogar a culpa adiante. Novamente parecem crianças balbuciando desculpas esfarrapadas ao invés de assumirem e voltarem atrás. A continuidade da conversa é catastrófica. MAS DEUS NÃO DESISTE DE NÓS. E assim o tempo e o espaço são testemunhas da voz de Deus que ecoa: “ADÃO, ONDE ESTAS?’
Ele nos busca e por vezes nos escondemos e por isso parece que Ele não vai nos encontrar. Quando chega não nos acha nem ouve a nossa voz. Fugimos. Mas Ele insiste até nos encontrar. Deus continua procurando seus filhos fujões, perdidos, quer encontrá-los para matar a saudade, a cena é tão forte na parábola do filho pródigo.
Há quem pense num Deus que busca para punir, para requerer explicações, mas na cena da parábola o mais importante é abraçar, beijar, festejar, as explicações não só não são requeridas como são ignoradas, o mais importante é beijar e receber o filho que voltou, é saber que de agora em diante a alegria voltou à casa.
Ele está com saudade, deseja o reencontro, quer festejar, não feche a porta.
Roberto Amorim

segunda-feira, 19 de julho de 2010

SAUDADE DA IGREJA


Hoje acordei saudoso. Acordei com saudade da igreja. Saudade da “aurora da minha vida” espiritual, daquele tempo que a igreja era composta de gente simples, sem tanto glamour, da igreja do órgão e do piano (as mais sofisticadas), dos hinos do velho e bom Cantor Cristão, e até das brincadeiras que os assembleianos faziam, dizendo que a única coisa que batista tinha de cristão era o cantor (uma alusão ao fato de as irmãs batistas usarem maquiagem, cortarem o cabelo e vestirem calças – todas estas atitudes tidas como não cristãs). Saudade da velha briga doutrinária sobre os dons, sobre línguas estranhas. Saudade da radicalidade da conversão e do ardor missionário. Saudade da ética protestante e dos frutos reconhecidamente evangélicos, onde até e principalmente os de fora reconheciam a lisura, a integridade, a pureza como sinônimos de irmão.
Sinto saudade dos pastores apaixonados pelo rebanho, de gente que se deu, que morreu sem estar preocupado com sua própria segurança e com o seu próprio bem-estar, contanto que o Evangelho chegasse aos confins da terra, gente cujo foco estava em ganhar os perdidos, bem diferente dos pescadores de aquário deste tempo cujas igrejas podem até inchar, mas que nenhuma diferença fazem para os que se encontram perdidos. Saudade dos obreiros incansáveis, trabalhando de sol a sol (II Tm 4:2) visando alcançar os perdidos, bem diferente dos preguiçosos que optam pelo caminho mais curto e confortável de alcançar os já alcançados. Saudade dos líderes firmes que conduziam o rebanho não ao sabor do mercado ou da última onda, mas por princípios, ainda que isso significasse antipatia. Saudade dos grandes oradores de outrora que embora tocassem em temas tão densos, conseguiam manter a audiência extasiada, saudade dos sermões sobre o céu e as delícias do porvir, bem diferente do psicologismo e da teologia de confissão positiva tão comum em nossos dias.
Sinto saudade tal qual o Senhor sentia da igreja de Éfeso (Ap 2:1-8). Saudade porque tais marcas ficam a cada dia mais raras. Saudade porque se comparo a igreja de outrora com a de hoje parecem se tratar de entidades, organizações e de organismos absolutamente diferentes.
Agora me lembrei da parábola do Rubem Alves sobre jequitibá e eucalipto. “Uma vez cortada a floresta virgem (de jequitibás), tudo muda. É bem verdade que é possível plantar eucaliptos, essa raça sem vergonha que cresce depressa, para substituir as velhas árvores seculares ... Para certos gostos, fica até mais bonito: todos enfileirados, em permanente posição de sentido, preparados para o corte. E para o lucro ... Jequitibá e Eucalipto, não é tudo árvore, madeira? No final, não dá tudo no mesmo? Não, não dá tudo no mesmo, porque cada árvore é a revelação de um habitat, cada uma delas tem cidadania num mundo específico”.
A igreja cresceu, ocupamos os lugares de honra na mesa do rei, ocupamos posições importantes na sociedade, estamos presentes em todas as esferas de poder, mas estamos perdendo o nosso lugar no Reino, o nosso castiçal está se apagando (Ap 2:5). Somos uma igreja que cresceu e chegou a números inimagináveis, somos mais de 30.000.000 de evangélicos no Brasil, mas já não vivemos em comum, já não temos uma só alma e um só coração (At 4:32; 2:44). Não somos mais a igreja periférica e pobre. Como atribuise ao diálogo entre Thomaz de Aquino e Inocêncio IV "já não podemos mais dizer 'não tenho ouro, nem prata', mas também já não podemos dizer 'levanta-te e anda”. Deus tenha misericórdia de todos nós e nos faça voltar ao primeiro amor.

Roberto Amorim