sexta-feira, 27 de agosto de 2010

QUANDO A VIDA VAI AO CHÃO

“...há tempo para todo o propósito ... tempo de derrubar e tempo de edificar” - (Ec 3:1,3)


Dois fatos dominaram os noticiários esta semana. As demolições das barracas de praia e da *Fonte Nova. Ambos tinham um tom triste, melancólico e saudosista. Vi atletas e torcedores dando declarações e se despedindo da velha Fonte. Também vi barraqueiros chorando ao virem suas barracas e seu ganha-pão tombarem na areia.
Embora os dois sejam demolições e os dois tenham certo ar melancólico e saudosista, há duas lições bem distintas em ambos. Derrubar quase sempre está associado à perda. Normalmente associamos derrubar a algo ruim, sofrimento e dor, mas estes episódios parecem nos mostrar como fatos semelhantes podem trazer experiências e sentimentos diversos.
A demolição das barracas de praia comprova a regra de que derrubar é ruim, sofrido e às vezes até desesperador. Era de cortar coração os depoimentos de homens e mulheres. A falta de perspectiva, a falta de esperança de que alguma coisa acontecesse para minimizar a sua dor ou resolver o problema, fez com que alguns pensassem em medidas extremas. Pessoas se amarraram a botijões de gás, intentando contra a própria vida, declarando com seu gesto de que lhes faltava esperança pra viver dali por diante e que preferiam até morrer. A demolição era ruim, sem propósito, sem esperança.
Já na demolição da Fonte Nova o sentimento maior era outro. Havia saudade, havia sofrimento, mas havia esperança. A certeza de que o sofrimento será compensado pelo futuro brilhante, pelo estádio melhor que será erguido no mesmo local, faz que a dor seja suportada até com certa alegria, como a mãe que dá a luz. Há despedida, mas ela tem o gosto de reencontro, é partida com sabor de chegada, é adeus com tom de até breve. É a demolição boa, com propósito e cheia de esperança.
Estes dois eventos são parábolas da vida. Na vida vamos experimentar demolições. Algumas podem ser demolições sem propósitos, sem razão de ser. Derrubadas que são só sofrimento e dor, resultado da irresponsabilidade de outro, onde somos apenas vítimas passivas do processo. Uma das piores tragédias da vida é a dor sem lições e dor sem razões. Mas existe outro tipo de demolição. É preciso aprender que dentre os propósitos da existência está o “derrubar”. Precisamos aprender que há horas que a única coisa a fazer é jogar ao chão, fazer cair, “perder”. Não se pode edificar algo novo quando a velha estrutura ainda está ali, de pé. É bom entender que para que as nossas tendas sejam ampliadas, as velhas tendas devem ser derrubadas. Na linguagem bíblica é tempo de derrubar, para que venha o tempo de edificar.
Quando vemos a vida ir ao chão, lamentamos. Quando experimentamos a perda, reclamamos. A grande sacada da vida não é viver sem perdas ou demolições, mas dizer com o profeta: “bom é trazer a memória aquilo que nos traz esperança”. A diferença entre ambos não está no passado, de glória, nem no presente, de dor, mas no futuro, naquilo que Deus edificará depois da demolição, no novo que Ele fará em nós e por nós.

• A demolição da Fonte Nova será hoje às 10:00h

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

LAPIDAR UMA MULHER

"Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Nos foi ordenado apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? " (João 8:4,5)

O mundo está estarrecido com a decisão do tribunal iraniano de condenar à morte, por apedrejamento, uma mulher, apanhada em adultério. O Brasil se ofereceu para recebê-la como refugiada. A minha cabeça gira, sentimentos se misturam, confusão.
Primeiro porque a reação do mundo tem um tom espetacular. Todos parecem estar diante de um fato inusitado, inédito. Na verdade este fato é um deja vu. Só pra falar de outro evento espetacular recente, em 2003 na Nigéria, onde a mulher teve a sentença adiada porque estava amamentando. O tribunal decidiu que ela só seria lapidada (nome dado ao ato de apedrejá-la) até à morte, depois que o filho fora desmamado. Daquela época só resta o poema de Affonso Romano Sant’Anna “Lapidar Uma Mulher”.
Segundo porque a reação de todos parece fazer acreditar que este tipo de barbárie contra a mulher já não mais existe em nossa sociedade. Porém, todos os dias os noticiários falam de homens matando mulheres pelos motivos mais vis, se é que há motivo pra se tirar a vida de alguém. Há cerca de 30 anos atrás um sujeito resolveu marcar o rosto de sua mulher com ferro em brasa com as letras MGSM (Mulher Gaieira Só Matando). Tal violência nos faz estremecer, talvez por causa do tom teatral. Mas violência contra a mulher é algo que vem de longas datas e que infelizmente está longe de terminar e acontece bem mais perto da gente do que se imagina.
No Irã, como na Nigéria e na maioria dos países de religião fundamentalista acredita-se que uma mulher pega em adultério precisa ser lapidada (apedrejada). Mas parece que este também é o sentimento de muitos que acreditam que palavras, pedras, socos, facas, tiros são instrumentos para lapidar a mulher e lavar a honra dos homens.
É interessante que uma única palavra possa ter significados tão diferentes. Lapidar pode significar apedrejar, tirar a vida, matar. Mas na minha infância lapidar significava trabalhar uma pedra preciosa, ressaltar as suas qualidades, tirar todas as imperfeições para que aquilo que é verdadeiramente precioso apareça. Na linguagem de Affonso Romano Sant’Anna:

“Há quem tente lapidar / uma mulher / como se lapida / jóia rara / e pedra bruta.
Com escalpelo / cinzel / buril / inscrevem nela uma figura, depois /
a expõem nos salões / revistas e altares / apregoando quantos camelos /
quantos colares / vale o dote / -da criatura.
Na Nigéria também / lapida-se mulher / mas de forma / inda mais dura”.

O maior protesto que se pode fazer contra esta violência cometida no Irã ou na Nigéria, a melhor forma de mostrar a estes bárbaros o quanto estão errados não é oferecer abrigo político, embora seja uma tentativa nobre, mas será que teremos território para abrigar todas as mulheres a serem lapidadas? O que faria o mundo tratar de forma diferente a mulher não é o jogo diplomático. O que fará diferença de verdade é a forma como tratamos as nossas mulheres, é a maneira como as lapidamos. É fazer como Jesus, mesmo quando estiverem erradas receberem a oportunidade de continuarem conduzindo as suas vidas rumo à uma vivencia mais plena, mais digna. É aprender com Jesus a verdadeiramente Lapidar uma mulher: “eu não te condeno, vá e não peques mais”. Vá e viva a vida abundante, e mostre o seu lado mais bonito, mostre-se como uma pessoa digna.
Portanto a minha bandeira de protesto contra a violência feminina no Irã ou em qualquer parte do mundo é que de forma prática, no dia a dia mostremos como se lapida uma mulher.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

OS VENDILHÕES MODERNOS

No mundo pós-moderno adaptar-se é a ordem. Ou se adapta ou se extingue, esta é a lei. A competitividade tem exigido cada vez mais habilidade, por isso não adianta manter-se fiel a métodos ou “visões” se estes não conseguem responder tão rapidamente quanto a concorrência. Inquietação, busca pela excelência, perfeição e tudo isso a baixo custo para conseguir concorrer no mercado globalizado.
O mundo eclesiástico também vive os seus dias de inquietação na busca da excelência nos métodos visando a “concorrência” da religiosidade globalizada, que na cultura pós-moderna virou um grande “shopping”, oferecendo ao cliente uma “espiritualidade sob medida” e a gosto do freguês. Na busca por “novos mercados” e na tentativa de vencer a concorrência têm-se reduzido os custos, inclusive dos nossos valores mais caros e hoje encontra-se no mercado religioso ofertas imbatíveis. O custo tem sido reduzido em muitos casos ao ter, ou melhor a dar o que se tem, mas sem nenhuma afetação no que se é.
Nesta busca por “novos mercados” os “executivos da fé” têm aberto mão da qualidade, o que no mercado globalizado é um erro grave. O mercado exige qualidade e baixo custo. O que se tem oferecido é a redução dos custos à custa da queda da qualidade. Ao invés da religiosidade/espiritualidade que traz esperança tem se consumido a religiosidade/espiritualidade que entorpece (ópio).
No afã de não perder o mercado e até expandi-lo e na busca por adaptar-se aos novos tempos e à lei da livre concorrência, não nos é permitido lançar mão de qualquer método. Todo novo método precisa ser avaliado à luz dos ensinos das escrituras. Sem observar esta regra básica e no afã de crescer, de virar mega a igreja tem se prostituído, perdendo, inclusive toda a sua relevância histórica. As ovelhas continuam desgarradas e errantes, mas destas (quase) ninguém tem compaixão, mas em compensação os títulos estão cada vez mais em voga e as relações humanas estão cada vez mais hierarquizadas. Há igrejas que têm se tornado tudo o que Cristo não gostaria que fôssemos: os lobos e as ovelhas, pastores e mercenários transitam nos mesmos apriscos, com os mesmos “discursos”. CONFUSÃO.
Resgatar a sua relevância histórica é um dever das fiéis, mesmo correndo o risco de estar na “contramão” da globalização religiosa. Perceber a sua missão ao ser deixada na terra e esforçar-se por cumpri-la é agradar Àquele que nos alistou. Ser movido de compaixão pelas vidas dos sem-vida, ser resposta às perguntas feitas pelos sem-voz, enfim fugir do CULTO/ESPETÁCULO que a tantos tem atraído e traído a verdadeira vocação da igreja.
Ser igreja de Jesus é ser serva, disponível e comprometida com o Projeto do Reino de Deus. É ser igreja onde a vida do Cristo é destilada nos relacionamentos com os de dentro e os de fora. Onde o amor/graça é o cimentador dos relacionamentos.
Oração: Ó Eterno, nestes últimos dias firma os nossos pés para não vacilarem diante das tentações eclesiásticas. Não nos deixe cair na tentação mercadológica de fazer das tuas ovelhas negócio.